Cidades

Tradição de fé em Ribeirão do Pinhal completa 80 anos

Tradicional Festa de Reis, do bairro rural da Jacutinga, em Ribeirão do Pinhal, atrai gente de toda região

(Divulgação)

A festividade, de origem portuguesa, trazida de Minas Gerais em 1939 pelo patriarca da família, Ambrósio Dutra da Silva e pela esposa Maria da Conceição, é mantida até hoje pelos descendentes e amigos da família Dutra. Neste ano de 2019 foi organizada pelos descendentes de Pedro Dutra, filho de Ambrósio.



A celebração católica em homenagem aos três Reis Magos, Baltazar, Belchior e Gaspar, que viajaram pelo oriente seguindo uma estrela para adorar Jesus, o filho de Deus, é comemorada todos os anos, em frente à Capela de Nossa Senhora da Conceição, localizado a aproximadamente 17 quilômetros da área urbana de Ribeirão do Pinhal, reunindo, a cada 06 de janeiro, cerca de três mil pessoas para pedidos, agradecimentos e devoção numa grande festa.

Segundo os organizadores, além dos moradores locais muitas pessoas de vários outros municípios fazem questão de participar, inclusive vindas de diversas regiões do país e até mesmo do exterior.

A peregrinação geralmente começa no dia 27 de dezembro, com um ritual de passagem da bandeira para os festeiros do próximo ano. A partir daí, os foliões, como são chamadas as pessoas que acompanham as visitas pela casa dos devotos, percorrem as áreas rurais e urbanas de Ribeirão do Pinhal, mas também visitam outros municípios da região até retornar ao bairro da Jacutinga para a festa de 06 de janeiro. As famílias que aceitam receber a bandeira pedem bênçãos aos Santos Reis e, em agradecimentos, fazem doações para festa.

No momento da chegada da bandeira, a emoção toma conta do público. O festeiro Otávio Dutra, que é um dos netos mais velhos de Pedro Dutra e representou o grupo dos netos e bisnetos para receber a bandeira, falou da emoção de ajudar a organizar essa festa. “Meu coração está cheio de alegria de poder participar representando meus irmãos, primos e sobrinhos, e contribuir para manter esta tradição tão linda”, disse emocionado.

Além da comida farta, a Festa de Reis tem como característica a música que embala a peregrinação. Instrumentos de corda e percussão enfeitados com fitas coloridas e flores, o embaixador – que é o líder do grupo de foliões -, os cantores e os bastiões ou palhaços dão o tom da manifestação folclórica.

De acordo com os foliões, com trabalhos voluntários, os descendentes de Ambrósio Dutra e outros colaboradores preparam a festa popular, que é aberta a todos, servindo sanduíches, refeições, refrigerantes e sorvetes preparados com carinho e distribuídos gratuitamente. Desde que a festa começou criou-se uma regra pelos organizadores de que nada poderia ser vendido nesse dia.

O prefeito de Ribeirão do Pinhal, Wagner Martins, que também é um dos descendentes de Pedro Dutra, esteve presente e fez questão de participar da organização da festa. “Para mim é uma satisfação compartilhar com meus parentes esse momento da Festa de Reis, onde reencontramos pessoas queridas que não vemos no decorrer do ano e mantemos viva essa tradição de fé e devoção”, enfatiza Martins.

LEGADO

O embaixador José de Souza, de 81 anos, conta que há 57 anos participa da festa e considera isso um compromisso assumido de coração e prepara a continuação. “Muito mais que festa para mim é uma missão que o tio Abraão Dutra, o primeiro embaixador, passou, e seguirei fazendo até quando Deus me permitir, e fico muito feliz em ver meu filho seguindo meus passos”, afirma Souza.

O comerciante Amado Dutra, filho de Abraão, garante que o que mantém a tradição viva é a união da família. “Mesmo que os parentes tenham se dispersado e seguido rumos diferentes, nos dias da festa sempre dão um jeito de estar aqui para participar”, ressalta Amado.

SALÃO COMUNITÁRIO

Os netos do Pedro Dutra, e o filho do patriarca, foram os festeiros de 2019, e para contribuir na manutenção da tradição e melhorar em vários aspectos da estrutura da Festa de Reis colocaram em prática um projeto para construção de um novo barracão do salão comunitário, ao lado da capela, onde a festa acontece todos os anos. Para isso a família Dutra e amigos arrecadaram fundos, independentes das doações para festa de 06 de janeiro, para realizar essa obra. “O objetivo de todos nós foi proporcionar um espaço mais adequado, tanto para os voluntários que se dedicam com carinho para fazer o melhor possível, quanto para o público em geral”, explicou Elio Marciminio Lisboa, que fez parte da organização.

Segundo Jemerson José Vieira, O atual barracão apresentava vários problemas, além de ser pequeno, com pouca altura, tinha diversas telhas quebradas e problemas na estrutura. “Isso sempre representava grandes dificuldades em dias chuvosos por causa do pouco espaço, e em dias de calor o teto baixo deixa o local muito abafado, além do risco de um acidente, por isso para essa festa de 80 anos decidimos nos unir para fazer diferente”.

HISTÓRIA

Em meados da década de 1930 o agricultor Ambrósio Dutra da Silva, com a esposa Maria da Conceição e filhos saíram de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, e vieram para o Paraná, desbravar a nova propriedade de 520 alqueires, que recebeu o nome de Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em homenagem à esposa. A fazenda que tinha sido adquirida por volta de 1925, nas proximidades da localidade que na época era identificada como Espírito Santo do Pinhal, foi dividida entre os herdeiros e ajudou a formar o bairro da Jacutinga e compor o município de Ribeirão do Pinhal.

Junto com a família, o patriarca trouxe uma bandeira de Santo Reis e em 1939 para cumprir uma promessa que pedia aos Reis Magos sucesso e prosperidade na nova terra fundou a companhia que deu início as festividades.

A Folia de Reis da Jacutinga, como é conhecida, começou pequena, formada apenas por membros da família, mas atualmente é conhecida em todo o Norte Pioneiro e também em outras localidades por influência dos participantes.

Como continuidade da festa, os membros da Folia de Reis da Jacutinga que moram em Curitiba criaram o Encontro dos Foliões, que se realiza no mês de outubro e contribui para confraternização entre os foliões.

Priscila Dutra

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