Esporte

Ex-técnico das categorias de base da seleção é acusado de abusar sexualmente de jovens atletas

Duas meninas, de 15 e 13 anos, prestaram depoimento denunciando o treinador de 70 anos

Técnico Luiz Antônio Lino chegou a trabalhar nas categorias de base da seleção brasileira — Foto: Reprodução redes sociais

Uma denúncia abalou o atletismo brasileiro nesta semana. O ex-técnico das categorias de base da seleção brasileira e há 35 anos funcionário da prefeitura de Osasco, Luiz Antônio Lino, de 70 anos, é acusado de abusar sexualmente de duas atletas menores de idade. Duas adolescentes, de 15 e 13 anos, foram nesta semana até a delegacia de Osasco prestar queixa contra o treinador, que trabalhava na preparação de novos talentos da modalidade em um espaço alugado no clube Sesi. Ele foi afastado preventivamente pela CBAt de suas funções após as queixas.

Lino é conhecido no meio do atletismo. Já revelou talentos como Lucas Catanhede, decatleta que levou a medalha de prata no Troféu Brasil deste ano, e Bárbara de Oliveira, prata no revezamento 4x400m no Pan de Guadalajara de 2011. Esteve na comissão técnica da delegação brasileira de atletismo em competições de base por vários anos. Foi treinador de atletismo da delegação brasileira nos Jogos Escolares Mundiais – Gymnasiade – em 2013. Treinador-chefe do Brasil no Sul-Americano de Menores (categoria até 17 anos), em 2014. Assim como no Campeonato Sul-Americano de Juvenis (até 19 anos), em 2015. Só para citar alguns exemplos.



A primeira denúncia foi feita pela adolescente de 15 anos. A vítima começou a treinar com Lino no meio do ano passado e sempre se sentiu incomodada com alguns comportamentos do treinador, com comentários inapropriados.

– Ele abraçava demais as meninas e, às vezes, em algumas ele dava uns tapas na bunda – disse a vítima em entrevista ao Esporte Espetacular.

Os abusos começaram após os treinos mudarem para o Parque Ana Luiza Moura Freitas. A prefeitura de Osasco ainda não tinha renovado a parceria para usar as instalações do Sesi, e o técnico decidiu levar os alunos para o local. Segundo a vítima de 15 anos, ele insistia em levá-la para casa de carro. Foi nessa situação que começaram os ataques.

– Acabei meu treino, já era meio tarde. Assim, tinha nuvem, essas coisas, nisso ele me pegou e me empurrou no carro, nisso daí já trancou. (…) Aí ele parou num lugar e já enfiou a língua na minha boca. Aí ele já falou para mim que não era para contar para ninguém, senão ia sumir comigo e que não podia contar para o meu irmão, que ele ia inventar uma mentira e que o meu irmão ia acreditar. Ele e minha mãe. E nesse negócio de sumir ele falava já que eu ia ser esquartejada, que ia me estuprar, essas coisas.

A adolescente acusa o treinador de obrigá-la a fazer sexo oral.

– Só que esse sexo oral veio a acontecer mais para frente. Isso aconteceu duas vezes, que foi que ele me pegou, e eu não conseguia sair porque ele era bem mais forte do que eu e nisso ele me beijava, eu não beijava ele, aí ele foi lá, tirou tudo, empurrou a minha cabeça e eu não consegui sair, porque tava no carro também. Aí ele fez isso.

(“Ele te forçou a fazer sexo oral nele?”)

– Sim. Mas quando eu ia subir que ele forçava mesmo, para eu não sair.

No último domingo, dia 30 de setembro, a mãe da vítima de 15 anos suspeitou que havia algo de errado. A filha estava inquieta em uma conversa no celular.

– “Você tá falando com quem?”, (perguntei). Ela falou: “To falando com meu professor Lino”.

Mas a mãe decidiu vasculhar o celular da filha. Encontrou uma foto das partes íntimas do técnico Luiz Antônio Lino e mensagens de whatsapp que tinham frases como: “Estou a fim de você”; “Posso passar aí e pegar você”. “Para dar uns beijos”. A reportagem teve acesso as trocas de mensagens. Em um momento, a vítima de 15 anos respondeu: “Pede para outra pessoa”.

– Me deu aquele (sentimento) de repente de olhar o celular dela. Aí, quando eu abri nas mensagens do professor, tava lá ele dizendo que queria beijá-la, queria ficar com ela e que dentro de 20 minutos ia passar para pegar ela.

A mãe, então, resolveu responder fingindo ser a filha.

– Eu me passei por ela. Falei: “Você está a fim de mim de verdade?”, mas ali já nervosa que podia ir além… Aí ele falou: “Eu to afim, to afim de te encher de beijo”, fazer aquele monte de coisa que ele falou na mensagem que não cabe dizer agora porque é constrangedor. Aí então no momento eu falei: “E a minha mãe?”. Aí ele falou assim: “A sua mãe tá em casa ou vai para igreja?”. Na hora eu já mandei um áudio xingando ele.

No dia seguinte, com a ajuda da família, a adolescente foi à Delegacia da Mulher de Osasco para registrar um boletim de ocorrência. Não há no documento menção aos dois episódios em que ela diz ter sido forçada a fazer sexo oral. Segundo a vítima, ela não se sentiu à vontade para falar tudo na delegacia. O depoimento foi prestado em um balcão, com muitas pessoas próximas. Ela não foi levada para uma sala privada.

– Tinha mulher de um lado, tinha mulher do outro. E nisso daí ela chegava e me perguntava as coisas, só que ela não deixava eu explicar as coisas direito. Ela queria ser muito rápida. Nisso meu pai perguntou se eu consegui falar tudo, eu falei que não porque ela falava as coisas muito rápido.

A delegada Luciana Bortolotto Mendes explicou que nem sempre as vítimas não conseguem contar todo o abuso que sofreram no momento da denúncia. E a adolescente pode voltar à delegacia para acrescentar novos fatos ao inquérito. As investigações estão em andamento.

– Na verdade, quando as vítimas chegam na delegacia elas chegam bem constrangidas. Elas ficam acatadas por mais que a gente tente deixá-las à vontade elas ficam ainda… Elas estão abaladas. O estado psicológico delas. (…) Se por ventura ela omitiu ou deixou de dizer alguma coisa relevante, que ela venha até a delegacia pra gente colocar isso no inquérito – disse.

Na última quinta-feira uma outra vítima de 13 anos também registrou um boletim de ocorrência relatando ter sido abusada pelo técnico neste ano.

– Quando eu chegava lá toda hora, ele falava: “Me dá um beijo aqui”. Ele me abraçava forte. E, quando eu ia para competição, ele sempre queria que eu eu sentasse na frente. Não deixa eu sentar junto com a menina. Passava a mão na minha perna, apertava as minhas coxas. Ele pegou e falou que meu peito parecia um “escondidinho de queijo” e falou da minha bunda. Que minha bunda ia ficar maior que o da minha mãe. Bateu na minha bunda e pegou no meu peito.

Ela lembrou de uma outra situação com o treinador.

– Estava fazendo o treinamento da escada. Quando eu terminei ele parou e mostrou. Olha aqui no meu celular. E abriu a tela do celular. Tinha várias fotos de mulher pelada, de menina pelada, vídeo. E falou que se eu contasse alguma coisa ia dar “bo” para mim, ia acabar com a minha vida. Eu fiquei com medo – disse a vítima 2, que também afirmou que Luiz Antônio Lino insistia em levar a vítima 1 para casa de carro depois dos treinos, apesar do pai dela oferecer carona, já que faria o mesmo percurso que ela para voltar para casa.

A reportagem tentou entrar em contato com o treinador, mas ele não atendeu às ligações. Por meio de uma nota divulgada por seus advogados, o técnico chama as “afirmações de covardes e inverídicas”. Também afirma que “os documentos foram produzidos artificialmente em mídias sociais contra um profissional com mais de 50 anos de atividade.” Segundo os advogados, a defesa “está adotando investigações paralelas em relação à vítima e seus familiares”.

A nota enviada pelos advogados ignorou a pergunta feita sobre a acusação de que o técnico teria forçado uma das vítimas a fazer sexo oral com ele. Depois de um segundo contato por email, essa foi a resposta:

“O senhor Luiz reafirma veementemente que nunca manteve nenhum tipo de relacionamento com qualquer atleta, negando todas as pífias e fraudulentas acusações”.

A prefeitura de Osasco afastou o treinador Luiz Antônio Lino de suas atividades.

– Sabemos que tem a denúncia. São fatos, são imagens, são coisas que só a Justiça pode dizer se é verdade ou mentira. Mas pra todo mundo foi uma surpresa pela história que ele tem e que até agora ninguém tinha notificado ou presenciado ou comentado alguma coisa que desabonasse ao professor – disse Carmônio Bastos, secretário de esportes de Osasco.

A Confederação Brasileira de Atletismo suspendeu preventivamente o técnico e ofereceu às vítimas assessoria jurídica e psicológica.

– Eu imediatamente solicitei a ajuda do departamento jurídico, e eles colocaram que a gente deveria fazer uma suspensão preventiva do treinador. E, consequentemente, que esperasse o boletim de ocorrência que é um documento oficial – disse Warlindo Carneiro, presidente da Confederação Brasileira de Atletismo.

O próprio Luiz Antônio Lino pediu descredencimento da entidade nesta semana após as denúncias das vítimas na Delegacia da Mulher de Osasco.

Em nota oficial, o Sesi afirmou que apenas cedia a pista de atletismo para as atividades e que nunca teve qualquer tipo de vínculo com o treinador.

*GloboEsporte.com — São Paulo

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