Agronegócio

Estoque de etanol maior no Brasil pode trazer açúcar de volta

O aumento dos estoques de etanol e a queda dos preços do biocombustível podem trazer de volta uma produção maior de açúcar no Brasil, o maior produtor mundial

O consumo de etanol não está acompanhando o rápido aumento da produção e, em parte devido à greve recente dos caminhoneiros, os estoques do produto estão 72 por cento mais elevados do que um ano antes. Com a disparada dos estoques, os preços no Estado de São Paulo caíram 13 por cento nos últimos 30 dias, aproximando-os do preço do açúcar e alimentando a especulação de que as usinas da maior região produtora do Brasil podem vir a produzir mais açúcar do que o esperado.



O maior excedente mundial de açúcar já registrado e outra projeção de superávit para a próxima temporada ajudaram a derrubar os contratos futuros negociados em Nova York em cerca de 25 por cento neste ano. Isso deu ao açúcar o pior desempenho do Bloomberg Commodity Index, composto por 22 matérias-primas, e levou as usinas brasileiras a tentar ampliar a produção de etanol à custa do açúcar. Mas isso pode começar a mudar em breve.

“Os preços estão caindo, os estoques de etanol estão subindo. A demanda é forte, mas provavelmente insuficiente para eliminar os estoques”, disse Tom McNeill, diretor da Green Pool Commodity Specialists, com sede em Brisbane, Austrália. “Creio que essa suposição de todos de que o máximo do etanol está absolutamente travado pode ser desafiada nos próximos três meses.”

Os estoques de etanol da região Centro-Sul do Brasil estavam em cerca de 4,7 bilhões de litros em 15 de junho, o que ajudou a reduzir os preços do metro cúbico do biocombustível entregue em Paulínia a R$ 1.537 reais (US$ 391), segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e de um grupo de pesquisa da Universidade de São Paulo. O real desvalorizado frente ao dólar está aumentando a atratividade das exportações de açúcar, que, diferentemente do etanol, são negociadas na moeda americana.

“Se essa tendência for combinada às preocupações de que um novo governo brasileiro eleito em outubro possa retomar o controle estatal ou o teto dos preços internos da gasolina, tornando assim o etanol menos competitivo nas bombas, o panorama não é bom para o açúcar”, disse Nick Penney, trader sênior da Sucden Financial em Londres. “As usinas podem aumentar a produção de açúcar com cana colhida mais para frente e exportar para aproveitar o dólar mais alto”

Prêmio do açúcar

Um eventual retorno do mix para uma produção maior de açúcar exigirá que a commodity tenha um prêmio de pelo menos 0,5 centavo por libra-peso sobre o etanol, disse Bruno Lima, diretor de açúcar e etanol da INTL FCStone em Campinas. As usinas geralmente não fazem a troca quando ambos os produtos estão em paridade porque as vendas de etanol são pagas imediatamente em dinheiro, enquanto as do açúcar levam mais tempo, disse.

O retorno para o açúcar no Brasil aprofundaria o superávit global. A Índia, segunda maior produtora do mundo, deverá produzir quantidades recorde de açúcar neste ano e no próximo. A Tailândia, segunda maior exportadora mundial, colheu uma safra recorde nesta temporada. Na União Europeia, a liberalização do mercado também ampliou a produção.

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