Saúde

Alvo de preconceito, jovem que não fecha a boca passa pela 1ª cirurgia

Cleiton nasceu com uma deficiência muscular e esquelética. Amigos e familiares fazem campanha nas redes sociais para pagar as despesas.

Cleiton com os dentistas e a mãe Fabíola (Foto: Alessandro Silva)

O jovem Cleiton Bezerra, de 24 anos, iniciou o processo para conseguir, pela primeira vez, fechar a boca. Alvo de preconceito, o morador de Cubatão (SP), que já foi chamado de ‘monstro’ e ‘babão’, nasceu com uma deficiência muscular e esquelética, que também o impede de mastigar e ter uma vida saudável. Após mobilizar especialistas e milhares de internautas, o jovem enfrentou a primeira cirurgia nesta semana. Porém, ainda precisa de doações para conseguir, finalmente, transformar sua aparência, saúde e vida social.

Segundo os especialistas que atenderam o rapaz, Cleiton entrou no centro cirúrgico do Hospital Vitória, em Santos, muito confiante e extremamente feliz com a oportunidade. Desde pequeno, ele sofre com a má formação, é alvo de preconceito por conta de sua aparência e nunca conseguiu se sentir totalmente inserido na sociedade.



A deficiência muscular e esquelética, na face, se caracteriza pelo crescimento vertical dos ossos. “Seus maxilares cresceram tanto para baixo que sua pele não comporta esse conteúdo ósseo, dentário e gengival, ficando tudo assim exposto ao ar, o que é agressivo e mantém sua garganta inflamada, bem como sua gengiva e céu da boca inchados”, explica o dentista Marcelo Quintela.

Cleiton passou por uma palatoplastia, procedimento que visa a reconstrução do palato. “Fizemos a correção do palato dele. Ele ficou de boca aberta a vida toda, e a mucosa foi alterada, não tinha espaço para a língua. Foi ótimo. Eu consegui melhorar bastante a condição dele, e ele está se recuperando agora”.

Quintela e Alessandro Silva, cirurgião buco-maxilo-facial, realizaram o procedimento de forma voluntária. Eles comandam o projeto Corrente do Bem, que realiza cirurgias e tratamentos de graça e, com doações, consegue ajudar pessoas com problemas odontológicos e faciais.

Segundo Quintela, a principal preocupação dos profissionais era quanto à anestesia geral. “Ele tem debilidade muscular no corpo todo, e não sabíamos se o diafragma ia dar conta no pós-cirúrgico”, explica. Por isso, após o procedimento, Cleiton permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva, por segurança. Ele recebeu alta médica nesta sexta-feira (20), e já está em casa.

“Agora, é esperar maturarem os tecidos que foram mexidos. A recuperação dele está ótima. Estamos aplicando laser dia sim, dia não, para acelerar o processo de recuperação, o que vai ajudar bastante”, explicou cirurgião buco-maxilo-facial.

A previsão é de que a segunda operação seja realizada em 40 dias. A cirurgia ortognática deve ser de maior porte, bem mais complexa do que a primeira. A ideia é harmonizar a face de Cleiton e, finalmente, dar condições para que o jovem consiga fechar a boca. “Os ossos da face serão reposicionados tridimensionalmente, por meio de softwares computadorizados, e a anatomia será redimensionada. Espero realizar tudo o que ele precisa em uma única intervenção”, afirma Silva.

Doações

Cleiton e a família não tinham condições financeiras de pagar por todo o tratamento médico. Por isso, há dois anos, ele começou a receber os cuidados na clínica odontológica da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), de forma gratuita, onde os dois dentistas prestam atendimento.

Os dentistas conseguiram, por meio de uma ‘vaquinha’, juntar dinheiro para que o jovem pudesse pagar um plano de saúde por dois anos. Assim, ele conseguiu realizar exames essenciais para verificar quais procedimentos cirúrgicos seriam necessários, e o quanto cada um iria impactar a vida e a saúde dele.

Porém, o dinheiro acabou, e os dentistas resolveram voltar às redes sociais e pedir ajuda para Cleiton. Familiares, amigos e até desconhecidos se mobilizaram, fizeram rifas e levaram o jovem para contar sua história em vários lugares, a fim de conseguir doações. Muitas pessoas se sensibilizaram com a causa. A família conseguiu quitar as dívidas e voltar a pagar o plano de saúde, que cobriu as despesas hospitalares nesta primeira cirurgia.

Porém, ele ainda terá gastos com o segundo procedimento e todo o processo de reabilitação, que engloba o serviço de profissionais de diversas áreas, como fisioterapeutas, fonoaudiólogos, neurologistas e nutricionistas. A campanha de doações continua nas redes sociais.

“Ainda é preciso cobrir toda a logística da cirurgia, transporte, comprar remédios. O que já foi arrecadado tem sido revertido para pagar o plano de saúde. A família tem feito uma vaquinha, rifas, e também vamos fazer um jantar beneficente no dia 8 de agosto”, comenta o cirurgião.

*Mariane Rossi, G1 Santos

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