Segunda, 24/04/2017

Paraná 17/04/2017 - Bem Paraná


Homofobia matou pelo menos 74 pessoas no Paraná desde 2012

Crueldade é marca constante das ocorrências, revelam dados do Grupo Gay da Bahia


Na última quinta-feira Curitiba virou manchete. Naquele dia, João Pedro Schonarth, 29 anos, e Bruno Banzato, 31 anos, viraram vítimas do ódio. Casados há sete anos, prestes a adotar uma criança e de mudança marcada para uma casa no Água Verde, viraram alvo de homofóbicos que espalharam pela vizinhança panfletos apócrifos, os quais diziam que “a rua vai ficar mais ‘alegre’ com os passeios matinais do casal, que vão influenciar filhos, netos” e que ainda dá o endereço da “baixaria”.

Nas redes sociais, a indignação foi grande diante do ocorrido. O questionamento mais comum era aquilo de “como isso ainda é possível em pleno século XXI”. O que muitos não sabem, contudo, é que episódios assim não só estão longe de ser uma exceção, como casos ainda mais graves são frequentemente registrados no Paraná.
De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), que mantém o observatório “Homofobia Mata”, desde 2012 pelo menos 74 homossexuais foram mortos no Paraná, sendo que 24 desses episódios foram registrados em Curitiba.
O número relativamente baixo de casos se explica pelo fenômeno da subnotificação, especialmente pelo fato de crimes homofóbicos não serem tipificados (ou seja, previstos em lei), o que dificulta o registro estatístico das ocorrências. O GGB, por exemplo, faz seus levantamentos com base em notícias publicadas em jornais de todo o país, já que não há nenhum tipo de registro oficial sobre esses casos.
Mas se o número de mortes é subnotificado, uma análise mais atenta sobre as ocorrências ajuda a revelar fatos importantes sobre nossa sociedade. No Paraná, a maioria das vítimas é gay (36,5%) transexual (31,1%) ou travestis(28,4%). Os dois últimos grupos/segmentos costumam ser também os que são vítimas nos casos mais violentos, e a plêiade de agressões são muitas, uma mais chocante que a outra.
Embora a maior parte das ocorrências no Paraná envolvam arma de fogo (39,2%), os casos de facadas (23%), asfixia ou afogamento (9,5%), espancamento (5,4%), apedrejamento (5,4%) e tortura (4%) também chamam a atenção para o nível de intolerância.

CASOS CHOCANTES

Eduardo Serenini
Em abril do ano passado, o estudante de pedagogia de 23 anos foi assassinado cruelmente. Morador de Toledo, no oeste do estado, ele teve os pés e as mãos amarrados, foi degolado, ferido com facadas no peito e atropelado pelos assassinos, de 14 e 17 anos. Segundo a polícia, porém, não foi um crime de homofobia, mas um latrocínio.
Nicole Borges
A travesti de 20 anos foi morta em janeiro de 2013 no Santa Cândida, em Curitiba. Tudo começou quando ela e seu namorado combinaram de sair para uma balada. No caminho, porém, o carro do rapaz quebrou e ele pediu para alguns amigos buscarem Nicole, em Araucária. Na balada, ela teri “se engraçado” com um dos rapazes, que só descobriram mais tarde que ela era travesti. Revoltados com a descoberta, o bando resolveu matá-la. Levou um primeito tiro na nuca e, já caída, levou mais tiros. Na saída, os bandidos ainda passaram por cima do seu pé.
Messias Ricetto
O homem de 34 anos foi encontrado por policiais em sua casa no começo de fevereiro, após notificação dos vizinhos. Gravemente ferido e amarrado com fios em Bandeirantes, no norte do Paraná, ele ficou 23 dias internado e acabou falecendo. Segundo a polícia, foi torturado e ficou mais de 24 horas amarrado. Quando foi encontrado, estava quase morto, com traumatismo craniano, roxo, com pés e mãos em estado de necrose.
Luana Biersack
A transexual de 14 anos,foi encontrada morta ao lado de um lago em Novo Itacolomi, norte do Paraná, em abril do ano passado. Quatro adolescentes teriam cometido o crime por homofobia. Sgundo a polícia, os suspeitos não teriam motivo nenhum para matar Luana, a não ser por preconceito e intolerância. Depois de se relacionarem sexualmente, com consentimento, os rapazes a agrediram com chutes e socos e a mataram por afogamento.
Kesley Arruda
A travesti estava às margens da BR-153 quando um Fusca se aproximou e a atingiu na madrugada do dia 09/12/2015. Após o atropelamento, os ocupantes do veículo desceram do carro e agrediram “Keslão”, como era conhecida, com pauladas na cabeça e no tórax. O caso foi registrado em Santo Antonio da Platina e a travesti chegou a ser atendida pelo Siate, mas não resistiu e morreu pouco depois de chegar ao hospital.
Robson Barbosa
No começo, a polícia acreditou tratar-se de um atropelamento. Depois, descobriu que o motorista Albano Luiz Gonçalves, de 57, cometeu o crime premeditadamente. Segundo ele mesmo confessou,

A homofobia mata

Número de mortes no Paraná

2017*.........7
2016.........15
2015.........8
2014.........11
2013.........15
2012.........18
TOTAL.........74
* Até o dia 16/04/2017

PERFIL DAS VÍTIMAS

Por segmento LGB

Travesti.........21
Gay..............27
Lésbica..........2
Trans.............23
Hetero............1

Por causa mortis

Espancamento........4
Carbonizado..........2
Apedrejamento......4
Tortura................3
Arma de fogo........29
Suicídio................3
Arma branca.........17
Atropelamento.......1
Asfixia/afogamento.7
Esquartejamento.....1
Sem informações....3

Impunidade é a regra
A maior parte dos casos de homocídio são registrados de noite ou de madrugada, em lugares ermos ou dentro de casa, o que dificulta a identificação dos autores, aponta o relatório de 2016 do GGB. Além disso, quando há testemunhas, muitas acabam se recusando a depor devido ao preconcento anti-LGBT. E há ainda o preconceito oficial: “ Policiais, delegados e juízes manifestam sua homotransfobia ignorando tais crimes, negando sem justificativa plausível sua conotação homofóbica”, diz o grupo.
No ano passado, foram registrados 343 homocídios em todo o país. Somente em 17% dos casos o criminoso foi identificado (60 de 343), mas o número de ocorrências que resultou em abertura de processo e punição aos assassinos é ainda menor: 10%.
“A impunidade estimula novos ataques. Dentre os 60 criminosos de LGBT, lastimavelmente, praticamente a metade mantinha contactos próximos com a vítima, seja como companheiro atual (27%) ex-amante (7%) e parentes da vítima (13%). Clientes, profissionais do sexo e desconhecidos em sexo casual foram responsáveis por 47,5% desses crimes de ódio.”





2017 - TANOSITE - Todos os direitos reservados
site desenvolvido por Rodrigo Campos (43) 9 8814-5432