Quinta, 21/09/2017

Educação 31/08/2017 - Gladys Santoro - Tribuna do Vale


“Estou realizando um sonho aos 78 anos”, diz aluna do Eja

Aluna do Colégio Maria Dalila se tornou exemplo para colegas e professores, pela coragem, disposição e determinação. Sua meta: aprender ler e escrever


Dona Maria Aparecida e Graça Zurlo: aluna e professora lutando para realizar sonhos - Gladys Santoro
O comum é imaginar uma pessoa na faixa dos 80 anos sentada à noite na frente da televisão, enrolada em uma manta esperando o fim da novela para ir para cama, e com sorte dormir a noite toda. Raro é encontrar uma senhora de 78 anos frequentando diariamente uma escola no período noturno para aprender ler e escrever. E os motivos são simples, mas inacreditáveis: “Não queria morrer sem saber interpretar essas letrinhas que até criança de pré-escola sabe”. “Quero ter o prazer de ler as placas nas ruas, os letreiros de nome de lojas, os bilhetes. Quero escrever o que tiver vontade. Quero sair de casa à noite, quero tirar essa venda que ficou nos meus olhos a vida toda e ver o mundo como ele realmente é”, resumiu a aluna Maria Aparecia Lima Moreira, 78 anos, divorciada, mãe de seis filhos (todos estudados) e avó de um neto que ela mesma cria.

Dona Aparecida faz o EJA (Educação para Jovens e Adultos), no Colégio Estadual Maria Dalila Pinto há três anos. Já eliminou uma série de disciplinas e na noite de terça-feira, 29, estava assistindo uma aula de Geografia com a professora Graça Zurlo, diretora da Faculdade do Norte Pioneiro (Fanorpi), quando a reportagem da Tribuna do Vale foi entrevistá-la. Surpresa, a idosa não achou que merecia tanta atenção, afinal, estudar é uma obrigação. “Tive seis filhos e todos estudaram. Fiz questão disso, porque durante toda a minha vida, passei uma série de dificuldades por não saber ler nem escrever”, comentou.

Dona Aparecida morava no Mato Grosso, casou-se com um platinense e mudou-se para Santo Antônio da Platina. Divorciou-se e foi trabalhar de doméstica na casa do médico Alício Dias dos Reis. “Quando dr Alício se tornou prefeito, me arrumou um emprego de servente de escola. Trabalhei 30 anos nesse serviço, mas sofria quando alguém me dava uma lista de compraras para fazer. Eu olhava aquele papel e não sabia o que estava escrito. Era obrigada a confiar nos funcionários dos comércios onde eu tinha que fazer a compra. Essa era uma situação que me aborrecia muito”, contou salientando que no decorrer da vida, passou por inúmeras situações dessa natureza, que a envergonhavam. “Um dia cansei de sentir vergonha e resolvi que tudo dependia apenas de mim mesma. “contou.

Mas as coisas não foram tão fáceis. Enfrentar os filhos que achavam sua iniciativa desnecessária foi uma das dificuldades. Outra foi deixar de cuidar do neto. “Entrei e saí várias vezes do Eja, mas depois peguei firme. É um sonho que tenho direito de realizar”, afirmou.
Embora disposta, a idosa deixa claro que assim que se formar, vai parar com os estudos. “Eu só queria aprender ler, escrever, fazer algumas contas e ampliar um pouco mais os meus conhecimentos. Já estou chegando lá. Em dezembro termino o curso e paro por aí. Já cumpri a minha determinação”, concluiu.

A boa vontade de Dona Aparecida e a realização de seu sonho acabaram não sendo uma vantagem só para ela. Os alunos que dividem a mesma sala de aula, não se sentem mais no direito de abandonar o curso, por mais dificuldade que estejam passando. Para Vera Amador, acompanhar a trajetória de dona Aparecida é uma motivação. “Ela perdeu um filho há pouco mais de um ano. Sofreu tanto que achamos que não voltaria às aulas, mas tirou força do sofrimento e manteve sua convicção”, contou a companheira lamentando que a amiga vai parar de estudar quando terminar essa etapa. “Ela me anima, me encoraja. Só a presença dela me ajuda. Vai ser difícil seguir em frente sem seu exemplo”, lastimou.

Caique Gabriel também faz o EJA na sala de dona Maria Aparecida. Bem mais novo, com apenas 23 anos, ele está lutando para terminar o ensino fundamental e tocar a vida para frente. “Às vezes dá preguiça de vir para a escola, dá vontade de descansar em casa, mas quando penso na dona Maria Aparecida, trato de fazer as coisas certas. Ela é um exemplo e um incentivo para mim”, afirmou.

A professora Graça Zurlo também comenta: “Quando estou cansada ou desanimada penso nessa aluna. Se ela tem força, coragem e disposição para realizar um sonho, eu não tenho direito de abandonar os meus”, comentou.



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