Sexta, 22/09/2017

Artigo 18/05/2017 - Clodomiro José Bannwart Júnior


Alinhavando alguns pontos...


As duas crises – política e econômica – que assombram o cenário nacional foram geradas quase que simultaneamente. Até parecem irmãs siamesas, pois nasceram na mesma data: dias depois da eleição presidencial de 2014. As duas cresceram em 2015, fortaleceram vínculos, distanciaram-se do debate público e deixaram um saldo amargo à sociedade. E a pergunta que sempre vem à tona está em saber quem determina quem? A economia conduz a política ou, ao contrário, é a política quem conduz a economia? A questão por si só abre um flanco ideológico entre liberais e estatistas.
Mundo afora, desde a década de 70, os liberais têm ganhado a dianteira do debate levando o neoliberalismo como receituário prático a muitos governos. No Brasil, a Constituição de 1988 fixou inúmeros direitos no campo do Estado Social. O governo FHC puxou o leme do Estado para águas mais liberais, determinando a modernização do Estado brasileiro a reboque da onda liberalizante no plano internacional. Lula surfou na onda liberal e selou acordos com a ala mais reacionária e arcaica da política nacional. Fez o país avançar na efetivação de direitos sociais, ao mesmo tempo em que atualizava as velhas artimanhas do Estado brasileiro na versão repaginada do neopatrimonialismo.
Dilma recebeu a incumbência de dar seguimento aos direitos sociais, acreditando estar sob o comando de um Estado forte. Fez ressuscitar em seu primeiro mandato o velho caudilhismo acrescido da marca, que fora vendida a exaustão por seu padrinho Lula, de que ela, além de competente, era também uma “gestora técnica”. Caudilhismo com boa dose de neopatrimolismo e uma pitada de tecnicismo parecem resumir a ópera mal regida do primeiro mandato de Dilma. Trocando em miúdos: Dilma vendeu a ideia de um Estado forte e intervencionista, abusando de preços administrados e sobrepondo, a todo momento, a tal “vontade política” sobre as leis do mercado. Ao chegar em 2015 veio à luz um Estado enfraquecido, adoecido e maltratado politicamente.
Somam-se ainda as investigações da Polícia Federal que, corporificadas na Operação Lava Jato e na atuação do Juiz Moro, passaram a revelar que o Estado brasileiro, combalido e quase falido, há tempo vinha sendo saqueado pelos donos do poder. Estes mesmos que ocupam altos postos no Parlamento e lá deveriam representar os interesses da nação e não os seus próprios. Passamos, desde então, a ver a política e os políticos entranhados nas páginas policiais ou nos posicionamentos do Ministério Público e demais decisões judiciais. De fato, a política foi judicializada. Há, da parte da sociedade em geral, uma aposta de que o país está sendo passado a limpo. Isso demonstra que há confiança demais no Judiciário e nos demais mecanismos de controle, como Ministério Público e Polícia Federal, e ceticismo generalizado na política e nas suas instituições.
Os mecanismos de controle assumem, no atual cenário, uma posição reativa, demonstrando que as engrenagens de promiscuidade entre Administração Pública e setor privado, entre partidos e empresas, não produzem efeito positivo para a democracia. Alertam, sobretudo, que este tipo de política é nocivo e desprezível, devendo ser combatido e extirpado de vez.
Enquanto os mecanismos de controle avançam em investigações e condenações de gente graúda, é importante que a sociedade não se divorcie da dimensão proativa da política. É por meio da política que se projetam as políticas públicas no curto, médio e longo prazo.
Em que pese o momento de crise que o país atravessa, é preciso manter acesa a esperança no futuro. E este se aproxima ou se distancia de nós em razão da qualidade que empregamos em nossas ações políticas. E para fazer avançar a democracia e o caráter proativo da política é fundamental que se abandone a ideia de que “o Brasil só progride à noite, enquanto os políticos estão dormindo”.

Clodomiro José Bannwart Júnior é Palestrante, Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina e comentarista do Programa Pauta em Debate, da Rede CNT de Televisão.


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